domingo, setembro 27, 2009

Eu não sei mais escrever. Algum dia eu soube? Nunca soube, mas pelo menos tentava. Sentava nesta mesma cadeira e escrevia. Escrevia muito. Escrevia para outros, para mim e para publicar no blog antigo. Sempre escrevia. Todos os dias, quando acordava e quando ia dormir. Era minha terapia diária, minha paixão, meu passatempo. Escrevia tanto quanto lia. Continuo lendo muito. Todos os dias, quando acordo e quando vou dormir. Ultimamente, durmo de manhã, de tarde e de noite. Portanto, invariavelmente estou com um livro na mão. Pela manhã leio Geertz, a tarde, leio Mauss, Le Breton, e outros livros que preciso ler, a noite relaxo (como se tivesse o dia muito corrido!) lendo o que Gabriel Garcia Márquez viveu para contar. Dizem que quem ler muito sabe escrever. Discordo e concordo. Eu não sei. Sei lá, sempre sou exceção. Nunca aprendi a usar vírgulas, fazer parágrafo, concordância de todos os gêneros. Não sei as regras da boa escrita e não sei quase nada sobre estudos de gênero. Não sei escrever. Tem que ter coerência, disse a professora depois de ler meu texto, você tem que seguir uma ordem de pensamento, não pode sair de Teresina e ir logo para o Japão. Não posso? Posso sair daqui e em poucos minutos estar em Taltal – aonde ainda não amanhece a primavera – posso imaginar sem vírgulas, parágrafo, travessão Lila (de Nilza Rezende) cheirando as roupas sujas do seu marido. Admiro, indico, leio, releio o texto cheio de vírgulas, de paixão e emoção, Sobre prostitutas e beijos do André Takeda. Identifico-me com esse texto por mil coisas e por mil vírgulas. Adoro vírgulas, gosto de deixar tudo separado, mesmo quando não precisa. Além de não saber escrever, trouxe para a minha escrita o que não faço quando falo: pausa. Como escrever, para mim, é uma terapia, compenso aqui o que não faço lá, e haja vírgulas! É, mais uma vez não fiz parágrafo, de um tema cai em outro sem muito nexo, não fui sucinta, não obedeci às regras de pontuação. Começo a pensar em como farei a dissertação. O calor dá preguiça. O ócio é bom para ler, escrever é prática. Essa frase não tem muita coisa a ver. Se eu fosse você não a colocaria no texto, essa foi umas das observações o professor fez. Ainda bem que esse texto não passará pela censura antes de ser publicado.

Um comentário:

Parreira disse...

Pense nisso: você ESCREVE para dizer que NÃO SABE MAIS ESCREVER. Por incrível que pareça, isso é bom. Eu também não sei escrever, e é por isso que eu escrevo. Porque a resposta da escrita está na escrita. Com vírgulas ou sem, travessões ou não, e cada autor se diferencia dos outros não pelas regras que segue, mas sim pelas exceções que inventa. Você pode não estar se dando conta, mas está indo mesmo quando pensa que não.