Querido Papai,
Vou direto ao assunto porque eu já estou cheia de enrolações. É tanta coisa na minha cabeça que tem dias que eu me pergunto por que não sou filha de chocadeira. Isso me magoa tanto, sabe? Se não fosse por vocês eu não teria problemas, saca? Quer dizer, eu acho que teria porque não teria casa, comida, escola... Decidi continuar aqui porque tipo... eu preciso ter um futuro promissor, ter dinheiro para me bancar, sair dessa casa e não ter que conviver com vocês. Casa e comida eu encontro em qualquer birosca, em qualquer prostíbulo, mas não é o que quero para mim... Eu preciso de paz. O senhor me entende? Acho que não, afinal ninguém me entende mesmo. Sei que agora deve estar pensando que sou uma rebelde sem causa, que estou assim porque sempre tive tudo na mão. Talvez seja mesmo. Ou não, vai saber, né? Ouvi a irmã mais velha da minha amiga dizer que a família é a causa de todas as neuroses. Não sei direito o que isso significa, mas no mínimo estou assim por culpa da nossa. Nós sabemos disso. E acho que a minha psicóloga também sabe. A primeira pergunta que ela me fez foi sobre a nossa relação. O senhor tem ideia do que seja isso? O senhor tem noção de como me senti criança por chorar na frente de uma estranha? Se eu tivesse em casa, eu teria gritado para desentalar aquele nó que ia da minha garganta ao estômago. Mas eu só chorei. Cheguei em casa e procurei no Google sobre família, achei tanta coisa, uma delas dizia que família era chata porque se não fosse, seria mafuá. Era uma coisa desse tipo, não me lembro bem, mas não concordo. Poderia ser de outra forma, a vida devia ser diferente. Por isso, eu acho que felizes são os pintos de granja. Felizes mesmo.
Sua filha
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