Lady Laura é paraense, possui traços marcantes. As maçãs do rosto bem definidas, a pele morena e o cabelo lisinho conservando uma franja davam-lhe um ar indígena. Ela era mais engraçada do que bonita. Esperta, era a criança mais atentada da rua. Uma praça separava as nossas casas e uma década separava a nossa convivência, não éramos amigas. Mantínhamos uma relação de boa vizinhança, ela não gritava na porta da minha casa e eu não espalhava o seu apelido para as outras crianças da rua. Não sei precisar quantos irmãos ela tinha, a única coisa que notei é que ela era a irmã mais velha dos irmãos mais novos e a irmã mais nova dos irmãos mais velhos (seria a irmã do meio?). Conheci seus dois irmãos mais novos: Nilson e Laurinda Penélope.
Laurinda Penélope era gorda, bochechuda e vivia escanchada no quadril da irmã mais velha. Não falava e não entendia muita coisa, apenas batia palmas quando alguém fazia uma gracinha. Adoro crianças, mas não vou mentir: o maior atrativo dela era o nome. Os irmãos abafavam a sua aparição. Ela era apenas um bebê.
O Nilsinho era o mais engraçado e tinha vários atrativos, a começar pela cabeça que lhe rendeu a alcunha de "Cabeça de Televisão". O apelido era motivo para calorosas discussões e xingamentos diversos. Eu me divertia, ele se chateava. Os meninos da rua se divertiam, ele ia para casa chorando. Depois voltava. Criança não esquece rápido, mas Nilson não era bobo e não perdia o precioso tempo de brincadeira com coisas que não podia mudar, retribuía os apelidos, xingava a madrinha dos outros, atirava sementinhas nos colegas e no terraço dos vizinhos. Aos domingos, ele se arrumava todo e ficava passeando pela praça, naquela impaciência infantil que antes de ir, já quer chegar. Ficava de um lado para outro, caminhando com as mãos no bolso e olhando para o tênis. Quando alguém perguntava para onde ele ia assim todo bonito, ele respondia contente: Vou pra casa da cumadi! Eu achava a coisa mais linda de ouvir.
Eles foram embora. Não sei para onde, não temos contato. Mas desde a morte da mãe do Roberto Carlos eu não paro de me lembrar dessas crianças. Não é à toa, claro.
Os nomes não foram trocados e se por acaso eles forem vizinhos do avô do primo da amiga da tia de uma colega de trabalho da sua mãe diga que mandei um abraço. E, por favor, não espalhe o apelido do Nilsinho, ele odiava!
Um comentário:
imagino a tela(literalmente) de uma criatura cujo apelido é "cabeça de televisão"!hahahahaha!
Postar um comentário