Vita já chegou dizendo que estava morrendo de saudades de mim. Abraçamo-nos e fomos jantar. Enquanto comíamos batata doce e beterraba cozidas, conversávamos sobre a escola e os textos que ela nunca mais trouxe para eu ler e revisar. Vita tem nove anos, quer ser atriz, escreve contos e diz que sou sua melhor amiga. Ela acha que fico mais legal quando estou solteira porque tenho mais tempo para as nossas brincadeiras, conversas e arrumações de mulherzinha. Falo para ela que fico mais legal quando estou feliz e felicidade não tem muito a ver com estado civil. Ela acha que tem e me deixa espantada. Como uma menina tão nova pode sair com aquele monte de idéias? Dalmatinha (apelido carinhoso que ela não se importa) é noveleira e adora escutar as conversas dos adultos. As suas idéias nascem da mistura das novelas, das conversas adultas e da sua imaginação infantil. Eu não acho conveniente criança saber de algumas coisas, creio que isso atrapalha o seu desenvolvimento emocional.
Vivi gosta de me observar enquanto me arrumo, mas não sabe observar calada, faz mil perguntas e ainda pede para maquiá-la. E sempre dá pitaco na minha vida amorosa. Ela acha que não devo casar com o meu melhor amigo porque ele enche muito o saco dela. E se eu casasse com ele, ela não moraria comigo quando a mãe dela morresse. Eu fiquei horrorizada quando ouvi isso. Ela tratou de me acalmar:
- Não é agora. Minha mãe vai ficar velhinha, eu vou cuidar dela e quando ela morrer, eu vou morar contigo. Você disse que quando fosse embora ia me levar. Eu só peço que me deixe assistir as novelas de noite.
Ela chorava quando eu dizia que ia embora e então eu dizia que se fosse embora ela iria comigo, mas as novelas seriam substituídas por aulas de música, dança e/ou literatura.
Na época dessa conversa, Vita tinha seis anos. Perdeu o avô e viu a protagonista da sua novela preferida morrer. Acabou ficando impressionada com morte e separação. Os pais estavam se separando, as tias conversavam sobre os relacionamentos fracassados e ela não cansava de perguntar por que o meu namoro havia acabado. Eu dizia que fazia parte da vida, ela dizia que gostava muito dele, que sentia saudades e perguntava se não íamos voltar. Eu filosofava que éramos como o sol e a lua e que nosso brilho era mais bonito e intenso quando estávamos sozinhos. Ela confessou que não teria filhos. Questionei a sua decisão. Ela me explicou que não teria filhos porque não iria casar. Os homens não se importam, eles deixam as mulheres sozinhas cuidando da casa e dos filhos e vão viver a vida deles. Só serve para dar dor de cabeça. Eu disse que aquilo não era verdade. Ela disse:
- Eu fui ao salão com a minha tia e todas as mulheres estavam falando isso.
Fiquei preocupada. Eu não acho conveniente criança ouvir histórias de adulto, principalmente as conversas pessimistas.
Palitolândia (apelido que ela odeia) disse que não via a hora de engordar e fazer caminhada para emagrecer. Não entendi o que ela queria dizer com aquilo. Ela me explicou com calma:
- Eu não posso fazer caminhada porque não preciso. Eu queria ser gorda para ter que fazer caminhada para emagrecer.
- Mas aí você ia ficar magra de novo.
- As mulheres fazem isso. A Lê faz caminhada e anda de bicicleta meia hora por dia. Eu queria ir com ela.
Não consegui segurar o riso. Vita sai com cada uma. Bom mesmo é quando ela passa as histórias para o papel e traz para eu revisar. Interessante é que os textos vêm com capa e com editora (que tem o nome dela), como se fosse um livro. Ela gosta de me ver com livros e acha que o meu dever de casa é grifar textos:
- A sua professora deve ser muito boa. É tão fácil ficar passando traços nos textos.
- É sim. Sabia que a minha orientadora é doutora em literatura!?!
- Eu quero conhecer ela. Ela vai poder me dar um monte de dicas de como escrever.
Vivita é inteligente e esperta, mas, às vezes, é tão inocente. Ela acredita que vou fazer 17 anos, mesmo sabendo que eu a vi nascer, coloquei-a para dormir e que na época eu já era grandinha.
Um comentário:
Eba! Melhor post dos últimos meses. Gosto das conversas ingênuas das criança. Já tive uma vizinha assim, cheia de ideias adultas, mas com sotaque infantil. Hoje ela tem 14 e diz que crianças são muito infantis. kkkkk. Estou gostando dessa estória de "Coisas do meu cotidiano"
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