quinta-feira, abril 19, 2012

Da saudade que eu [não] sinto

Já que estamos falando sobre coisas que não entendemos, eu não compreendo saudade – a confissão saiu em meio a fumaça do cigarro. Ele me fitou por alguns segundos, tomou um gole de cerveja, franziu o nariz e disse: Você não sente saudade? Não sei. Eu não sinto o que as pessoas descrevem como saudade e fico constrangida quando alguém diz que sente saudade de mim, eu nunca sei o que dizer. Tomei um gole de cerveja e deitei-me no sofá, prevendo que aquela conversa se estenderia por toda a madrugada. Ele foi até a janela, acendeu um cigarro e olhando fixamente para a parede disse: Eu senti saudades de você. A voz dele soou tão dramática que eu já sabia que por trás de toda aquela encenação havia uma piada pronta. Sorrimos. Ele foi à cozinha, pegou outra cerveja, ligou o computador, encheu nossos copos e continuou: Sabia que eu não me espanto com a sua confissão? Você é estranha, uma verdadeira prima-dona. Sentei-me no sofá, desfiz o meu rabo-de-cavalo e tentei me explicar: Pra começo, isso não tem nada a ver com o meu individualismo, egoísmo ou qualquer coisa que você leu naquele dicionário de insultos. Eu só não consigo sentir como os outros... Não é que eu não me lembre das pessoas que foram importantes na minha vida ou das fases que foram marcantes. Lembro-me de tudo, com muito carinho, mas não quero que nada volte. Nem que ninguém volte?, perguntou-me enquanto caminhava em direção à mesa do computador. Nem que ninguém volte, respondi com segurança, mas por dentro me sentia inadequada. Com os olhos vidrados no monitor e com um sorriso leviano no rosto, ele me chamou: Vem aqui, deixa eu te mostrar uma coisa. Encostei-me à sua cadeira e vi o perfil de uma mulher. Ela foi importante, além de ser gostosa, mas eu não quero que ela volte, ele disse em meio a gargalhadas. Tentei segurar o riso, mas foi em vão. E você, seu procaz, tem um perfil fake? Ele ficou sério, engoliu seco, espremeu os lábios e disse: Eu sinto saudades, mas também não quero que nada, nem ninguém volte. Eu prefiro ir atrás, da maneira que me é própria. Ficamos em silêncio, ele na cadeira e eu em pé. Entendíamos um ao outro, tínhamos sentimentos tão simples quanto a dialética hegeliana. A cerveja acabou, eu disse. O cigarro também, ele lamentou. Fomos dormir.

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