Naturalmente
Trabalhamos na mesma instituição
e frequentamos os mesmos lugares, mas só ficamos amigos quando o modem da minha
casa desconfigurou e ele se ofereceu para consertar. Na época, ele pretendia
morar em outro estado e eu pretendia sair do mundo. Enquanto ele pensava em se
mudar, eu entrava em curto-circuito por qualquer coisa. Resolvemos compartilhar
as mudanças. Nunca fiquei tanto tempo falando amenidades com uma pessoa. Eu
lidava com as expectativas de um começo, ele com a decepção de um fim. Tínhamos
que desopilar, era isso que nos unia. Bobagens e mais bobagens, qualquer coisa
era motivo pra gente marcar um encontro na cafeteria. A cafeína e os sorrisos do
dia ilustravam a minha insônia. Mais outro motivo para ter com ele, mesmo que
por sms, alguns minutos a mais.
Tô com insônia =/
Dorme que passa ;P
hahaha. Sabia que ia dizer isso.
Que mais?
Não quero ser seu amigo gay. Boa
noite!
Os nossos dias foram ficando mais
corridos, as minhas expectativas de um começo viraram experiências, a decepção
de um fim dele virou experiência também. A overdose do início foi cedendo
espaço para os pequenos sumiços. Os horários não batiam, a nossa mesa na cafeteria
já tinha outros donos.
Cheio de trabalho acumulado, mas
ainda respiro.
Mais legal do que saber que você
ainda vive, é saber que se lembra de mim.
A ansiedade deu trégua. A insônia
também. O trabalho ficou em dia. Passamos a nos encontrar nos finais de semana.
Eu falava da minha vida e ele ficava
feliz por mim de uma forma tão explícita que eu ficava constrangida por não
saber retribuir com a mesma intensidade. Ele contava da vida dele e do misto de
tristeza e alívio que sentiu quando seu pedido de remoção foi negado. Não
escondi a minha felicidade pela notícia. Ele também não escondeu que gostou da
minha reação.
Tínhamos sempre alguma coisa pra
conversar e sorrir: as minhas ideias sem eira e nem beira, a cantada que ele
recebeu da secretária, o livro interminável de cem páginas, a relativização da
prostituição no último filme que assistimos, o cachorro da vizinha que passeia
no meu quintal. Tudo parecia ser importante e era motivo para nos deixar uma,
duas, três horas falando, falando e falando. Numa dessas noites de conversas intermináveis,
o assunto acabou. E foi ali que começamos a compartilhar as permanências.
Durma, meu amor.
Até amanhã, sweetheart.
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