segunda-feira, maio 06, 2013


Naturalmente

Trabalhamos na mesma instituição e frequentamos os mesmos lugares, mas só ficamos amigos quando o modem da minha casa desconfigurou e ele se ofereceu para consertar. Na época, ele pretendia morar em outro estado e eu pretendia sair do mundo. Enquanto ele pensava em se mudar, eu entrava em curto-circuito por qualquer coisa. Resolvemos compartilhar as mudanças. Nunca fiquei tanto tempo falando amenidades com uma pessoa. Eu lidava com as expectativas de um começo, ele com a decepção de um fim. Tínhamos que desopilar, era isso que nos unia. Bobagens e mais bobagens, qualquer coisa era motivo pra gente marcar um encontro na cafeteria. A cafeína e os sorrisos do dia ilustravam a minha insônia. Mais outro motivo para ter com ele, mesmo que por sms, alguns minutos a mais.
Tô com insônia =/
Dorme que passa ;P
hahaha. Sabia que ia dizer isso. Que mais?
Não quero ser seu amigo gay. Boa noite!

Os nossos dias foram ficando mais corridos, as minhas expectativas de um começo viraram experiências, a decepção de um fim dele virou experiência também. A overdose do início foi cedendo espaço para os pequenos sumiços. Os horários não batiam, a nossa mesa na cafeteria já tinha outros donos.
Cheio de trabalho acumulado, mas ainda respiro.
Mais legal do que saber que você ainda vive, é saber que se lembra de mim. 

A ansiedade deu trégua. A insônia também. O trabalho ficou em dia. Passamos a nos encontrar nos finais de semana.  Eu falava da minha vida e ele ficava feliz por mim de uma forma tão explícita que eu ficava constrangida por não saber retribuir com a mesma intensidade. Ele contava da vida dele e do misto de tristeza e alívio que sentiu quando seu pedido de remoção foi negado. Não escondi a minha felicidade pela notícia. Ele também não escondeu que gostou da minha reação. 

Tínhamos sempre alguma coisa pra conversar e sorrir: as minhas ideias sem eira e nem beira, a cantada que ele recebeu da secretária, o livro interminável de cem páginas, a relativização da prostituição no último filme que assistimos, o cachorro da vizinha que passeia no meu quintal. Tudo parecia ser importante e era motivo para nos deixar uma, duas, três horas falando, falando e falando. Numa dessas noites de conversas intermináveis, o assunto acabou. E foi ali que começamos a compartilhar as permanências. 

Durma, meu amor.
Até amanhã, sweetheart.

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