domingo, dezembro 15, 2013


Na primeira infância, morei em uma cidade pequena, no interior do estado. Lá aprendi a gostar de plantas, bichos e a odiar a cor amarela e fraca das casas e dos postes. Foi nessa cidade que convivi com meus pais juntos e isso marcou a minha vida. Lembro-me de uma casa que tinha uma caixa d'água imensa no quintal e uma árvore grande, não sei se era palmeira, um coqueiro ou uma mangueira. Só me lembro de ver os galhos balançarem quando ventava e chovia. Eu nunca me esqueci das folhas perto da caixa d'água. Eu nem sei se a árvore ficava perto da caixa, mas eu me lembro disso assim: as folhas balançando e a caixa d'água prestes a cair. Ela nunca caiu. Dessa época, eu tenho algumas memórias materializadas, um book que fiz com a minha irmã do meio, com roupas e poses da moda anos 80, na praça da igreja principal.
Eu me lembrei disso ao caminhar pelo centro da cidade em que, atualmente, moro. Dobrei uma esquina, vi a praça da igreja, o céu nublado e todas essas recordações vieram à tona. Compartilhei, imediatamente, com o namorado as recordações. No fim da rua, senti um cheiro que me acompanha a vida inteira e emocionada disse: o cheiro do meu pai. Corri para a árvore que estava com os galhos dependendo para a calçada. Eu agi por impulso e quis logo pedir a dona da casa uma muda para ter uma espécie daquela em casa. Fui contida. Mas não me reprimi. Conversei com a dona da casa, uma senhora muito simpática, e descobri que o cheiro não era daquela planta, era de outra.
O cheiro também não era do meu pai. Eu falei por impulso. Eu sempre disse que aquele era o cheiro da cidade em que morávamos. Depois que fomos embora de lá, eu nunca mais vi essa planta, mas também nunca esqueci o seu cheiro. Durante boa parte da minha vida eu associei esse cheiro ao conforto que meu pai trazia mesmo depois de partir. Sempre que eu estava em alguma situação desconfortante, eu sentia o cheiro. Por tempos, acreditei ser ele me trazendo conforto, mas depois descobri que era meu cérebro me trazendo conforto. Tanto faz, nessa tarde nublada, esse cheiro me fez sentir um monte de coisas que nem sei explicar.
Saí da casa da senhora, feliz com uma sacola de galhos, que eu pedi para perfumar a minha casa, e sementes. A minha euforia foi contida, no fim da rua, pela visão de uma palmeira balançando. Ela embelezava uma construção antiga. Do outro lado, a igreja. A única vez que entrei lá foi para missa de 22 anos do meu pai, no primeiro fim de semana que passei aqui.
Que meu racionalismo me perdoe, mas depois desse cheiro e dessas lembranças, eu vou acreditar que foi ele que me colocou ali, naquela rua, naquela hora, com aquele céu.

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