Na primeira infância, morei em
uma cidade pequena, no interior do estado. Lá aprendi a gostar de plantas,
bichos e a odiar a cor amarela e fraca das casas e dos postes. Foi nessa cidade
que convivi com meus pais juntos e isso marcou a minha vida. Lembro-me de uma
casa que tinha uma caixa d'água imensa no quintal e uma árvore grande, não sei
se era palmeira, um coqueiro ou uma mangueira. Só me lembro de ver os galhos
balançarem quando ventava e chovia. Eu nunca me esqueci das folhas perto da
caixa d'água. Eu nem sei se a árvore ficava perto da caixa, mas eu me lembro
disso assim: as folhas balançando e a caixa d'água prestes a cair. Ela nunca
caiu. Dessa época, eu tenho algumas memórias materializadas, um book que fiz com a minha irmã do meio,
com roupas e poses da moda anos 80, na praça da igreja principal.
Eu me lembrei disso ao caminhar
pelo centro da cidade em que, atualmente, moro. Dobrei uma esquina, vi a praça
da igreja, o céu nublado e todas essas recordações vieram à tona. Compartilhei,
imediatamente, com o namorado as recordações. No fim da rua, senti um cheiro
que me acompanha a vida inteira e emocionada disse: o cheiro do meu pai. Corri
para a árvore que estava com os galhos dependendo para a calçada. Eu agi por
impulso e quis logo pedir a dona da casa uma muda para ter uma espécie daquela
em casa. Fui contida. Mas não me reprimi. Conversei com a dona da casa, uma
senhora muito simpática, e descobri que o cheiro não era daquela planta, era de
outra.
O cheiro também não era do meu
pai. Eu falei por impulso. Eu sempre disse que aquele era o cheiro da cidade em
que morávamos. Depois que fomos embora de lá, eu nunca mais vi essa planta, mas
também nunca esqueci o seu cheiro. Durante boa parte da minha vida eu associei
esse cheiro ao conforto que meu pai trazia mesmo depois de partir. Sempre que
eu estava em alguma situação desconfortante, eu sentia o cheiro. Por tempos,
acreditei ser ele me trazendo conforto, mas depois descobri que era meu cérebro
me trazendo conforto. Tanto faz, nessa tarde nublada, esse cheiro me fez sentir
um monte de coisas que nem sei explicar.
Saí da casa da senhora, feliz com
uma sacola de galhos, que eu pedi para perfumar a minha casa, e sementes. A
minha euforia foi contida, no fim da rua, pela visão de uma palmeira
balançando. Ela embelezava uma construção antiga. Do outro lado, a igreja. A única
vez que entrei lá foi para missa de 22 anos do meu pai, no primeiro fim de semana
que passei aqui.
Que meu racionalismo me perdoe, mas
depois desse cheiro e dessas lembranças, eu vou acreditar que foi ele que me
colocou ali, naquela rua, naquela hora, com aquele céu.

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