sábado, agosto 21, 2010

Desabafando em preto e branco

Era sábado. Fomos a um restaurante. Eu e a minha idéia fixa, ele e o celular dele que não para de tocar. Procuramos uma mesa. A mais reservada. A cadeira que ficava de costas para o ambiente era a minha. Eu não queria a visão do todo. Fragmentos. Fragmentos e ele porque eu estava com uma ressaca maldita. E muita fome. Ele pediu uma cerveja e eu escolhi o prato. Enquanto ele bebia e falava, eu comia e sorria e reclamava da ressaca e falava da minha idéia fixa: o mestrado. Uma cajuína para mim, o celular dele tocando. Todas as pessoas do universo ligando e caindo na caixa postal. Nas nossas abstrações não cabia mais nada além da análise do preto e branco. Se eu tivesse dito "preto no branco", eu estaria remetendo o leitor ao destaque de algo, mas eu escrevi "em preto e branco" e isso não significa realçar.

- Pense numa fotografia em preto e branco, ele me orientava.

- Estou pensando

- O que você viu?

- Meu quarto frio e a minha cama me chamando.

- Você viu tons de cinza. Uma terceira cor.

Se cinza era uma terceira cor, sem ser necessariamente uma terceira cor, meus problemas estavam parcialmente resolvidos. Era só fazer uma analogia com a teoria da interpretação de segunda ou terceira mão. A minha idéia fixa foi deixado de lado e nós passamos a conversar sobre as idéias dele.

Era segunda. Fomos a uma lanchonete. Eu e meus vestidos recém comprados, ele e as coisas que ele não para de falar. Procuramos uma mesa. No local climatizado porque fazia calor e ele estava empacotado do trabalho. Ele pediu um suco, eu disse para ele não colocar açúcar. Ele me olhou assustado. Conversamos e comemos. Ele disse que como muito e que sou densa. Eu perguntei o que ele queria dizer com aquilo. Ele falou de massa, densidade, volume, fórmulas. Boa parte do universo não suportaria uma conversa sobre Física e sairia, no mínimo, correndo daquela mesa. Eu fiquei e mudei de assunto. Nas nossas abstrações não cabia mais nada além da análise do que nós estávamos fazendo. Se eu tivesse dito "hora errada", eu estaria sendo desonesta, mas eu disse "sintonia diferente" e isso não significa um erro.

- Pense em tudo o que já passamos e nos anos que nos conhecemos, eu o orientei.

- Estou pensando

- O que você viu?

- Que você tem medo de se casar comigo.

- Você viu que estamos em sintonia diferente. E não é a primeira vez.

Se a sintonia era o problema, sem ser necessariamente um problema, a situação estava parcialmente resolvida. Era só fazer uma analogia com a teoria da interpretação da primeira e da segunda vez. Não sei se as idéias dele foram deixadas de lado, só sei que hoje ele sofre da Síndrome do Cara Certo Na Sintonia Diferente e que ele odeia as minhas teorias de FM.

Um comentário:

Radiozão disse...

Branco e preto. Na acústica existem 3 tipos de ruidos básicos: The white noise, the black noise and the gray noise. O "barulho cinza tem a ver com a fusão dos outros dois. É o que você ouve em um rádio desintonizado. Em branco e preto, o cinza. Malditas teorias de FM....