Tenho vários livros espalhados na
mesa. Um notebook ligado, dois celulares no silencioso e uma conversa no
bate-papo com uma amiga. Tenho um concurso público daqui a 13 dias. Prometi
para mim mesma que não me submeteria a outro concurso esse ano, mas aquele
edital saiu e, talvez, eu tenha chance. A primeira fase só vai depender de mim.
Não há ninguém para transferir a culpa. Só eu, folhas em branco e um tema
sorteado na hora. Escrever sobre um dos dez temas estudados talvez seja a parte
menos sofrida do processo. Mas mesmo assim eu tenho medo. E o medo me
impulsiona a ir, mesmo com a lembrança constante do meu fracasso no ano
passado, na mesma instituição. Além do medo, eu me sinto cansada disso. Em um
ano fiz cinco processos seletivos e dois concursos públicos, enfrentei todos os
tipos de situações, superei alguns dos meus limites e tive um bom resultado em
seis.
Num desses seletivos, eu não
tinha como voltar para casa. Fiquei na rodoviária com bolsa e mochila pesadíssimas,
não tinha mais ônibus para a minha cidade. Já estava tarde, mas eu queria
dormir em casa. Necessitava da minha cama e do conforto de ter a família perto.
Depois de dar voltas, consegui embarcar num desses ônibus clandestinos que
fazem linha para o norte do país. Mesmo muito sujo, foi o melhor ônibus que já
peguei na vida. Cheguei em casa e decidi que não passaria mais por aquilo.
Um mês depois eu viajava para
outro processo seletivo. Tive a sorte de ter o pior dos temas sorteado, fiz uma
péssima aula e saí da sala com uma crise de riso dos infernos. Uns candidatos
que estavam fora acharam a minha saída divertida, eles não sabiam que tudo ali
era nervosismo. Fui esvaziar a cabeça numa cidade vizinha. Voltei para casa
decidida a superar aquilo.
Em menos de um mês eu me submetia
a outro processo seletivo. Por ser na minha cidade, não tive grandes
transtornos, além de algumas noites sem dormir. Duas semanas depois, fiz minha
inscrição para outro processo, mas depois de passar a noite inteira preparando
a aula do pior tema da lista, desisti de ir. Não estava preparada para a prova,
não estava preparada para os "Que vacilo! Deveria ter tentado" das pessoas que
não tem noção. Percebi que eu precisava me preparar não só para as provas, mas
para as cobranças/tensões que vem com elas. Percebi também que algumas pessoas
não podem ficar próximas em processos que requerem muita capacidade intelectual
e equilíbrio emocional.
Quatro meses depois passei por
dois concursos de uma vez só. No primeiro, o pior tema da lista foi sorteado e
eu deixei a prova em branco. Na semana seguinte a esse episódio, o tema que eu
queria foi sorteado e assim eu consegui ir até a última fase. Foi o primeiro
concurso para professor efetivo que fiquei classificada.
Um mês depois eu já estava
envolvida com provas. Passei em todas as fases e foi o segundo concurso para
professor efetivo que fiquei classificada. Duas semanas depois, fiz um seletivo
para professor do departamento que me formei. Exausta, esperando a banca me
chamar para começar a minha prova de didática, eu me lembrava de uma amiga.
No segundo dia do ano, viajamos
para a cidade que faríamos a segunda etapa do meu primeiro concurso para
efetivo. Ficamos três dias enfurnadas em um quarto de hotel, tomando mais café
do que água. Tivemos a sorte de tirar bons temas e fazer boas aulas. Antes da
aula, minha amiga caminhava de um lado para outro e repetia: "Não sei por que
eu ainda me submeto a isso." Terminado o processo, voltamos para casa, estávamos
exaustas e ainda pegamos a estrada errada.
Registrei o estado do nosso
quarto só para reforçar o "Não sei por que eu ainda me submeto a isso!"

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