Ele disse que queria a minha companhia. A lua estava cheia e a
garrafa de vinho, quase vazia. Tive um pouco de medo. Ele disse que eu pensava
tanto que deixava as oportunidades passarem, ele poderia passar. Pensei mais
alguns minutos. O que de tão extraordinário poderia acontecer? Absolutamente
nada. Aceitei o pedido.
Alguns dias depois estava de mudança para a casa dele.
Foi assim que me casei pela segunda vez. Não teve padre, não teve pastor, nem
juiz. A nossa consciência decidiu tudo. Os amigos mais íntimos foram nos
abençoar. Foi um final de semana inteiro de festa. Bebemos, comemos, dançamos, tentamos
planejar como seria o nosso dia a dia a partir daquela decisão. Deixamos para
depois. Ele estava bêbado e adormeceu. Velei o seu sono, era impossível dormir
com tamanha roncaria. Mesmo apaixonada, eu precisava descansar, mudei de
posição na cama. No meio da noite, ele acordou procurando desesperadamente algo
perdido, depois de revirar o travesseiro, viu-me, encolhida, na outra ponta da
cama, abriu o sorriso e os braços e disse: Você
está aí. Não tem dúvida que perdure com a cena do cara amado te procurando debaixo
do travesseiro. Naquele momento, eu soube que tinha feito a escolha certa.
A comemoração acabou, começaram o cotidiano e as descobertas. Ele
é metódico, eu também sou. Eu sou pontual, ele quer chegar antes. Brigamos por
causa disso. Um dia, eu estava atrasada para um compromisso. O fato de estar
atrasadíssima não lhe dava o direito de ficar na porta do banheiro enquanto eu
me arrumava. Mudei de banheiro, ele foi atrás. Ficamos irritados, pedi para ele
não chegar perto, saímos sem dar as mãos.
Ele é orgulhoso, eu não sou. Ele é livre, eu sou possessiva.
Queimei uma cafeteira por causa disso. Na noite anterior ao incidente, a ex
dele foi muito simpática e passou parte da festa do nosso lado. Eles riam com
os amigos, eu não sou moderna a esse ponto. Eu disfarço bem, mas depois entrego
o jogo.
Eu não gosto de imprevisto, ele não muda seus planos. Eu passo café,
ele toma iogurte. Eu sugiro um programa, ele quer que eu separe a roupa mais
adequada. Ele acha que posso ir sozinha, eu quero ir acompanhada. Uma vez, saímos
para dançar no meio da semana. Eu não queria voltar cedo, resmunguei, ele não
quis discutir, fez um sanduíche para mim e foi dormir. Fui conversar, ele
resmungou. O clima ficou tenso, dormimos.
Ele toma café da manhã assistindo ao jornal, eu admiro aquele
olhar sexy. Eu cozinho o básico, ele faz comidas exóticas. Ele lava as louças,
eu ouço música. Ele quer que eu atenda ao telefone dele, eu não acho
conveniente. Ele reclama que não faço um favor, eu digo que devemos ter
privacidade. Um dia, ele ficou sabendo que um cara me paquerou. Eu não neguei,
não tive culpa. Ele disse que o máximo
que faria, numa situação daquela, seria jogar as minhas coisas pela janela. Não discutimos.
Da janela que as minhas coisas seriam atiradas, assistimos a
entrada de uma noiva na igreja. O trompete triunfal anunciava um começo. Ele
acredita em amor pra vida toda, eu também. Conversamos e chegamos a um
consenso: casamento só deve durar enquanto fizer sentido para os dois. Foi o
fim.
Ele me abraçou e eu o beijei. Não fizemos alarde, não quebramos
objetos e nem rogamos pragas um no outro. Decidimos ter um fim digno e saímos
para almoçar. No mesmo dia, ele viajou e eu retirei meus pertences da casa
dele.
Dias depois ele me enviou um torpedo dizendo que tinha encontrado o
bilhete que eu havia deixado na gaveta do banheiro e que estava com saudades da
sua ex-esposa. Respondi dizendo que o adorava. Não reatamos. Não fazia mais
sentido.
Estamos bem e fazemos parte da estatística que diz que "casamento
na pós-hipermodernidade dura em média sete dias".
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