terça-feira, novembro 20, 2012


Ele disse que queria a minha companhia. A lua estava cheia e a garrafa de vinho, quase vazia. Tive um pouco de medo. Ele disse que eu pensava tanto que deixava as oportunidades passarem, ele poderia passar. Pensei mais alguns minutos. O que de tão extraordinário poderia acontecer? Absolutamente nada. Aceitei o pedido. 

Alguns dias depois estava de mudança para a casa dele. Foi assim que me casei pela segunda vez. Não teve padre, não teve pastor, nem juiz. A nossa consciência decidiu tudo. Os amigos mais íntimos foram nos abençoar. Foi um final de semana inteiro de festa. Bebemos, comemos, dançamos, tentamos planejar como seria o nosso dia a dia a partir daquela decisão. Deixamos para depois. Ele estava bêbado e adormeceu. Velei o seu sono, era impossível dormir com tamanha roncaria. Mesmo apaixonada, eu precisava descansar, mudei de posição na cama. No meio da noite, ele acordou procurando desesperadamente algo perdido, depois de revirar o travesseiro, viu-me, encolhida, na outra ponta da cama, abriu o sorriso e os braços e disse: Você está aí. Não tem dúvida que perdure com a cena do cara amado te procurando debaixo do travesseiro. Naquele momento, eu soube que tinha feito a escolha certa. 

A comemoração acabou, começaram o cotidiano e as descobertas. Ele é metódico, eu também sou. Eu sou pontual, ele quer chegar antes. Brigamos por causa disso. Um dia, eu estava atrasada para um compromisso. O fato de estar atrasadíssima não lhe dava o direito de ficar na porta do banheiro enquanto eu me arrumava. Mudei de banheiro, ele foi atrás. Ficamos irritados, pedi para ele não chegar perto, saímos sem dar as mãos. 

Ele é orgulhoso, eu não sou. Ele é livre, eu sou possessiva. Queimei uma cafeteira por causa disso. Na noite anterior ao incidente, a ex dele foi muito simpática e passou parte da festa do nosso lado. Eles riam com os amigos, eu não sou moderna a esse ponto. Eu disfarço bem, mas depois entrego o jogo.

Eu não gosto de imprevisto, ele não muda seus planos. Eu passo café, ele toma iogurte. Eu sugiro um programa, ele quer que eu separe a roupa mais adequada. Ele acha que posso ir sozinha, eu quero ir acompanhada. Uma vez, saímos para dançar no meio da semana. Eu não queria voltar cedo, resmunguei, ele não quis discutir, fez um sanduíche para mim e foi dormir. Fui conversar, ele resmungou. O clima ficou tenso, dormimos. 

Ele toma café da manhã assistindo ao jornal, eu admiro aquele olhar sexy. Eu cozinho o básico, ele faz comidas exóticas. Ele lava as louças, eu ouço música. Ele quer que eu atenda ao telefone dele, eu não acho conveniente. Ele reclama que não faço um favor, eu digo que devemos ter privacidade. Um dia, ele ficou sabendo que um cara me paquerou. Eu não neguei, não tive culpa.  Ele disse que o máximo que faria, numa situação daquela, seria jogar as minhas coisas pela janela. Não discutimos. 

Da janela que as minhas coisas seriam atiradas, assistimos a entrada de uma noiva na igreja. O trompete triunfal anunciava um começo. Ele acredita em amor pra vida toda, eu também. Conversamos e chegamos a um consenso: casamento só deve durar enquanto fizer sentido para os dois. Foi o fim.

Ele me abraçou e eu o beijei. Não fizemos alarde, não quebramos objetos e nem rogamos pragas um no outro. Decidimos ter um fim digno e saímos para almoçar. No mesmo dia, ele viajou e eu retirei meus pertences da casa dele. 

Dias depois ele me enviou um torpedo dizendo que tinha encontrado o bilhete que eu havia deixado na gaveta do banheiro e que estava com saudades da sua ex-esposa. Respondi dizendo que o adorava. Não reatamos. Não fazia mais sentido. 

Estamos bem e fazemos parte da estatística que diz que "casamento na pós-hipermodernidade dura em média sete dias".

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